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Mostrando postagens com o rótulo Deu na telha

Um texto sobre o nada

Este texto foi escrito por mim em abril de 2019, para uma disciplina da faculdade.      Em uma das infinitas dimensões possíveis havia um universo. Nele havia uma porção de espaço sideral ligeiramente conhecida, onde havia uma galáxia. Para fins astrofísicos essa galáxia era dividida em braços.      Em um dos braços (um bem periférico) havia um sistema que orbitava uma estrela considerada pequena. E era assim que eu teria começado este texto se eu tivesse inspiração suficiente para continuar escrevendo a partir daí. Mas não tenho. Então escrevo este texto sobre o nada, diretamente de um apartamento de 60 metros quadrados ou menos, localizado num bairro de classe média na cidade de João Pessoa. Todas essas informações significam o mesmo que nada para os outros planetas que orbitam o mesmo sistema que eu, no mesmo braço da mesma galáxia da mesma porção mapeada de espaço sideral que eu.      É difícil escrever um texto sobre o nada. Eu não sabia...

Suicídio

Saiu como um trovão a última frase do livro. Pele pálida, suor descendo a linha do nariz, contornando a boca. Ah, a boca. Pinga no papel. "Mais um", foi o que pensou no momento. Na penumbra do quarto quente e vazio, a silhueta cravada de ossos. Magra como a noite escura, bordada de cicatrizes que o vento encarregou-se de trazer como se fossem estrelas. Mais uma gota de suor brota no topo da testa, ainda em meio aos fios ralos do cabelo, que insiste em cair. Acaricia a penugem da sobrancelha, irrita as pálpebras, pinga do olho, quase uma lágrima. Termina o caminho levemente como se não houvesse culpa nas entranhas do sal que carregava. Não há necessidade de limpar. "Mais um". Usava para escrever uma máquina como quem quer esconder a cena do crime. Recusava-se a encostar no papel - palavras cortam. Palavras sujas cortam. E cortavam-na por dentro e amarravam suas vísceras. Palavras são doenças incuráveis. A mão descascada tremia e fazia tilintar os ossos de vidro ...

Gosto.

De quem não tem hora marcada. De quem causou a bagunça. De quem não repara nela. De quem ajuda a arrumá-la. De brincar descalço. De horário de verão. E cheiro de livro velho. De cor. De quem não entende e pergunta de novo. E de novo. Do que é novo. Do que é eterno. Do que nunca vai ser. De quem diz pra nunca dizer que nunca. De quem não sabe cozinhar. De quem sabe. De quem conta histórias. De histórias. De música gostosa. De dia ensolarado e gosto de azul. De chuva, também. Das pessoas que entram sem bater. Que não tiram o chinelo na porta e deitam no sofá e trocam o canal da TV. De quem liga sábado às 4 da tarde só pra ter certeza se. Vontade de. Como é que tá? De viagem longa e abraço apertado e mapa do caminho e reencontro. De quem volta. De quem entende que tem que ir embora. - Já diria o poeta que amar é voltar, mas, amar mesmo, amar muito, é partir. O bolo de aniversário. As alegrias e as tristezas e o barbante que a gente guarda meio abarrotados na gaveta de col...

O grande mito do "felizes para sempre"

"A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade." Amo Drummond e não é de graça - ele faz por merecer. Excessos literários e purpurinas à parte (coisa rara de se ver por aqui, confesso), venho apresentar minha opinião sobre o grande fantasma do felizes para sempre que a sociedade nos enfia pela garganta e a gente acaba se deixando engolir. Então se prepare, porque lá vem. Delete do pensamento a sensação de que amor só é de verdade quando se mistura com paixão e envolve duas pessoas.  Não é assim. Aliás, esse tal amor carnal é uma das variações do Amor Maior (sim, em letra maiúscula!) e não, ele não é o segredo da felicidade. Esqueça os filmes e os livros e a mídia e toda a ideia de que o futuro traz felicidade. Ele não traz.  O para sempre também não é o segredo da felicidade. E devo mencionar que...

Carta à surpresa

Das milhões de coisas que poderiam passar pela minha cabeça quando o avião decola, a que mais me fascina é olhar para as luzes e imaginar o que estariam fazendo as pessoas debaixo delas. Estou olhando pela janela agora e caramba!, você iria adorar esta vista. Iria rir comigo dos pontinhos acesos, me perguntaria quantas pessoas eu acho que existem lá embaixo, se elas estão se arrumando para alguma festa e, caso estejam, se ainda dá tempo da gente descer e ir junto. Acho que felicidade é também um pouco disso: deixar-se surpreender. A gente vai perdendo essa capacidade com o passar do tempo e é por isso que queria você aqui agora. E que dorzinha no ouvido, hein? Você estaria reclamando dela agora. Talvez chorando. "Tô com fome". Essa ansiedade de quem não tem hora marcada pra nada, mas mesmo assim quer tudo ao mesmo tempo agora e para o último segundo. A gente vai perdendo isso também. Se eu pudesse devolver o livro que ajudava a realizá-lo mais rápido... Aliás, se eu pudess...

Livro de cabeceira

Pro que ainda não chegou, espaço. Pro que já se foi, história. Costumo largar livros bons pela metade. Não por não gostar ou por ter preguiça, não mesmo. É pelo fim. Não compreendo porque certas coisas boas acabam com um virar de página e por isso vou atrasando a leitura ao máximo, vou fingindo que não vejo o que se passa na trama... Tento esquecer dos personagens e de tudo o mais. Vez ou outra alguma palavra se desprende do texto e vem me tirar o sono, me sacodir a rotina. Tento embolá-la numa frase ao vento e não olhar pro livro empoeirando na cabeceira. Abro outro, mais um, largo tudo pela metade e me recuso terminar a emoção de ler o novo pela primeira vez. Pro que deu certo, outra dose. Pro que não deu, mais três. Juro que se você me olhar de novo, caminho até aí. Bonita camisa. Fica melhor amarrotada. Atravesso o continente do bar inteiro e vou aí te ver, eu juro.  Pros abraços perdidos, mapa.  Pros olhares cruzados, bom dia. Pros apertos de mão amedrontados, perdão...

O adeus que eu nunca dei

Fechei a mala pela décima vez. Sou péssima em terminar as coisas, que fique claro de primeira. Não consigo terminar nenhum poema, tremo ao terminar relacionamentos e é por isso que terminar de arrumar a mala é sempre um serviço árduo. Talvez me seja complicado não só pelo trabalho em si: rolar um zíper pelo pano desbotado não exige tanta força. Acho que fechar malas é difícil por causa do que está por trás - a despedida. E, meu caro, se existe uma coisa impossível ao ser humano, devo apontar que despedidas são impossíveis a mim. Olhei no relógio. Os dias ficam mais corridos quando a mente não para no lugar. Acho que o grande problema da humanidade está dentro daquilo que não é dito.  Amaldiçoadas sejam as palavras que não saem. Arrependi-me de todas as frases que montei na mente e que não fui forte o suficiente para colocar pra fora. Arrependi-me mil vezes de ter ouvido a música e não ter cantado junto. Você ficou parado ao pé da escada enquanto eu rolava minha mala ...

A insustentável leveza do ser

"Desde sua mocidade, não fazia outra coisa senão falar, escrever, dar cursos, inventar frases, procurar fórmulas, corrigi-las, de maneira que as palavras nada mais tinham de exato, o sentido delas se apagava, perdiam seu conteúdo sobrando apenas migalhas, partículas, poeira, areia, que flutuava no seu cérebro dando-lhe enxaqueca, e que era sua insônia, sua doença. Teve então a vontade confusa e irresistível de uma música enorme, de um barulho absoluto, que englobaria, inundaria, esmagaria todas as coisas, que anularia para sempre a dor, a vaidade, a mesquinharia das palavras. A música era a negação das frases, a música era a antipalavra." A insustentável leveza do ser - Milan Kundera

Alô, Marisa!

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" Eu aprendi com a primavera a ser cortada e voltar sempre inteira " Cecília, sempre linda. Ô, moço! Deixa eu, moço! Deixa eu meio aos avessos, meio assim, meio assado. No meu mundo, do meu jeito, com meu gosto! Deixa eu, moço! Que faço não porque quero, mas porque sou! E sou o que a vista alcança, o nariz cheira, a mão encosta. Sou até o que não foi escrito, sou o verso que não saiu, a rima que não deu certo, o fogo que não pegou! Então deixa eu, viu, moço?! Que sou breve ao olhar de quem não vê e sou sempre demorada, arrastada, meio trôpega, pra quem quer enxergar. E não venha com ideologias, moço, nem você, minha senhora, que não sou para analisar. Não quero filosofias, nem explicação, nem nada que siga um curso de lógica! A existência está contida no indefinível, em tudo o que o amar tem de inimaginável! Então vem, viu?! Ou me aceita, ou me deixa, moço, que isso aqui é uma explosão! E sou esse constante não estar estando, o não fazer fazendo, tudo o que o se...

Let's have the time of our lives!

     Querer é não se esvair de tentar.      Perdoar é não se findar de amar.      E amar, amar mesmo, é um incansável agradecer.      Pedir é o caminho que cega o agradecer, é o que cobre o realizar.      Pedir é o problema - o grande e abominável problema do mundo todo.      Solucionando, então. Obrigada. De verdade. Por terem feito dar certo, mesmo que indiretamente. Por ter sido bom, mesmo que completamente diferente. Por tudo e por nada - é sempre bom usar antítese.      E sabe qual é a mágica? O Sol nasce todo o dia. Brota do horizonte e logo após um beijo dá n'outra ponta para que tudo possa descansar - e acordar de novo. E se fazer o novo. Re-criar, re-estar.      É sempre vida nova e ela se faz todo dia.      Por que não realizar?, s e estamos todos aqui, se somos todos agora?      Obrigada, mais uma vez. Valeu a pena. Cad...
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A última coisa que busco fazer nessa vida é sentido. . 

Alzira Silva

Levantou-se e manteve-se ereta e em posição estratégica enquanto olhava em volta. Como um soldado a analisar seu campo de batalha. (E que batalha!) Podia ver vestígios da luta da noite passada em todos os lugares. Aliás, que lugar era aquele? Diferente. Não era como o Motel 4Estações, onde na cama, os corpos, embalados pelo calor das noites daquele janeiro, cediam espaço aos ratos. Era bonito. Havia uma bandeja no criado-mudo esquerdo. O lado em que ela dormia. Isso quando dormia. Porque ficava acordada todas as noites esperando o Sol se levantar e dar-lhe um beijo. Na bandeja haviam duas maçãs, alguns biscoitos e um copo com suco de laranja. "Geladinho", pensou. Questionou a si mesma que lugar seria aquele. Pôde ver refletida no banheiro uma toalha com o emblema do que ela julgara ser o lugar onde estava. Hilton. Havia dado sorte, então. Pensou no quanto sua conta bancária aumentaria. Pensou em João Mário, que já estava reclamando do ensopado que era posto na mesa todos o...

Palavras ocultas

Havia esperado por aquele momento. Não um dia, ou uma semana. Mas havia esperado por aquele momento a vida inteira, como as andorinhas esperam pelo verão. Havia passado e repassado o mesmo filme incontáveis vezes na mente, e já tinha certeza do que falaria. Certeza que, agora ela percebia, sumia como água que desce pelo ralo: rápida, sem fazer barulho ou deixar marcas. Mas ela não se importava. Aliás, talvez esse defeito seja o motivo para ter demorado tanto para o filme se tornar realidade: ela não se importava com as coisas. Em seu âmago, ela de certo se importava. Sua alma chorava ao ver a alma de outros chorarem - especialmente a dele. Mas era difícil perceber tais fatos. A menina não deixava transparecer. Seus olhos... Talvez eles fossem rios sem água, esperando por uma gota de chuva no deserto do Saara. Mas não naquele momento. Naquele momento, a menina já não era a mesma. Seria a chuva derretendo sua armadura de açúcar? O cabelo e as roupas. Ambos completamente molhados. E...

Carol cara de Sol.

Eu gosto do Sol. Gosto do jeito como ele faz as coisas ficarem mais alegres. Gosto da cor. Amarelo. Laranja. Arco-íris. Eu gosto do Mar, também. Gosto da Lua. Gosto como os dois parecem ficar olhando um para o outro, como um casal de namorado que estão a amar-se. Gosto do Céu. Gosto do jeito como ele é tão... presente. Azulão (“voa, Azulão!”). Gosto das flores. Gosto das formas que elas possuem, os cheiros, as cores, a beleza. Gosto das estrelas, das nuvens, das folhas das árvores que vão caindo no outono, do cheiro de capim fresquinho pela manhã. Gosto de ver trigo no campo, de comer algodão-doce. Gosto de abraçar. Gosto muito das pessoas, também. Aliás, talvez este seja um dos meus defeitos: gostar demais. Uma das poucas coisas que eu não gosto, é a chuva. Não adoro, não gosto de ver o dia triste. Não gosto quando o Sol chora. Porque eu gosto do Sol e não gosto quando alguma coisa que eu gosto chora. Porque sorrir é melhor do que chorar. Eu gosto de sorrir. Enfim. Um dia chuvo...

E então veio o Natal.

Não veio gelado. Não veio com flocos de neve caindo pela janela, nem com canecas de chocolate quente. Melhor: veio quente! Veio com o Sol. E então veio o Natal. Não veio com casacos de frio nem com lareiras. Muito melhor do que isso! Veio com picolés, veio com a brisa do verão, veio com música. Ele chegou de mansinho, aproximou pessoas distantes, colocou um sorriso nos rostos sozinhos. E há motivo melhor para ser feliz? "É Natal! É verão!" (Texto pequeno só para deixar claro: voltei pro blog.) :)

Desejo de temporal

De vez em quando, eu peço ao Senhor do Tempo para que chova sem parar. Para que inunde todos os meus sonhos e encharque todos os meus desejos. Só para você trazer o Sol. Vir me buscar, vir me salvar. .

E agora, José?

(Valeu, Drummond!) Neste momento, há 6.875.870.198 pessoas na Terra. Milhares delas estão felizes agora. Planejando o casamento, se arrumando para a formatura, no cinema com os amigos. Muitas estão dando gargalhadas neste exato segundo. Celebrando o aniversário, começando um namoro. Fazendo brigadeiro na casa da melhor amiga. Outras, estão acabando de acordar. Com aquela ressaca e muitas lembranças engraçadíssimas de ontem a noite. Dentre estas, algumas já estão até com o telefone no ouvido esperando o gatinho que elas conheceram atender. Boa parte deste número está trabalhando. Viajando. Contando as horas para chegar em casa e ver que o filho mais novo aprendeu a andar. Que aquela calça serviu na esposa. Mas devo lhes confessar uma coisa: a grande maioria chora. Lastima-se pela perda da avó, a nota baixa na prova de Geometria. A grande maioria está em prantos neste exato momento, com saudade do amigo que mudou de cidade, chateada com o ex-namorado chato que faz de tudo par...

Segundo post do dia.

'Você sabe o que é o amor?' Me perguntaram uma vez. Bom, quando eu nasci, conheci uma moça que havia aguentado o meu peso durante nove meses sem reclamar, superou todas as dores do parto. E mesmo antes de ela saber se eu seria bonita, ou legal, ou qualquer coisa, ela já gostava de mim com todo o coração. E depois eu conheci um monte de pessoas incríveis, que me ajudavam na escola e saiam comigo nos finais de semana. Me abraçavam quando eu chorava e me ligavam quando eu ficava muito tempo sem dar sinal de vida. Cantavam "parabéns pra você" no meio da rua só para me fazer passar vergonha no dia do meu aniversário e riam comigo quando meu cabelo estava estranho. A eles eu dava o nome de 'amigos'. E depois de um tempo, eu conheci um menino. Ele não era o mais lindo e de longe o mais perfeito. Mas me fazia rir o tempo todo e quando eu estava com ele, me sentia leve. Era como se fosse só esticar um pouco o braço para tocar as estrelas. Ele me apertava quan...

Assim é se lhe parece

(Sonhos são estranhos, não?) Outro dia vi teu amor passando na rua. Perguntei como ele estava e ele me disse ' c ai fora'. Acho incrível a facilidade que você teve para se esquecer de mim e de tudo o que passamos juntos. Outro dia vi teu amor passando na rua e ele me pareceu tão chato! Você já foi legal, sabia? Ainda não entendi como você conseguiu virar isso, este poço de amargura. De verdade. Desculpa. Outro dia vi teu amor passando na rua e percebi quatro relógios no braço dele. Todos eles sincronizados meticulosamente com o horário exatamente correto do satélite. E você olhava-os com frequência. Espantei-me: você costumava ser livre, me ajudava a voar sempre que eu me esquecia como bater as asas. Por que estaria tão preso à números? Dia desses encontrei com teu amor na esquina. Ele me parecia aflito, estressado com alguma coisa. Havia um nó em sua garganta, um dos bem explícitos. Como se ele quisesse dizer muitas coisas mas algo o sufocava. Sua testa estava suand...

De vez em quando...

... Eu prefiro dizer qualquer porcaria a ficar quieta e deixar o meu silêncio falar por mim. Porque, tenho certeza, o que ele pode dizer é perigoso. Muito perigoso. .