O pouco que ficou do que teve de partir

Pode entrar e deixar a carteira na mesa. Pode abrir a geladeira e fazer uma cópia da chave pra você. Pode chegar à hora que quiser e não precisa bater antes de entrar. Aliás, não precisa nem ir embora, pode ficar por aí. Pode trocar os canais da TV, pode escolher o filme no cinema e não precisa pagar a conta no final. Eu pago, viu?
Pode entrar no quarto e mudar as roupas de lugar, pode mexer nos meus papeis e bagunçar os documentos. Pode trocar a temperatura do chuveiro e usar minha escova. Eu deixo. Na verdade, te peço. Suplico.
Fica do meu lado quando chover. Fica aqui quando o chão sujar, quando o domingo for longo e a programação da televisão horrível. Não sai daqui nem se lhe gritarem lá fora, fica aqui comigo e me lembra de quando você chegou, me explica porque foi embora e não me deixa dormir sem te contar porque te pedi pra voltar.
Me ensina outra vez pra qual time a gente tem que torcer e porque o gol foi impedido. Escuta de novo as minhas perguntas bobas e olha: eu já sei a resposta, só continuo perguntando porque amo sua voz. E seus olhos, e seu cheiro de café quente e tudo o mais.
Chega mais e continua aqui até eu enjoar. Traz sua ausência com você, que é dela que sinto mais falta. Sinto falta de te querer perto, te ligar pra voltar. Sinto falta da saudade me abraçando e dos seus livros que empoeiravam por tantos dias sem abrir. Te quero longe, porque lá é mais perto de mim que aqui.
Senta aí e entende que não há nada mais presente que a falta. Aprende que sua saudade é minha melhor companhia e a deixa aqui comigo mais um pouquinho. Deixa que ela cuide de mim quando eu gripar e que me espere arrumar pra sair.
Toma banho aqui comigo mas não lava a sua ausência, não, que a quero suja, quero sua ausência amarrotada, cansada. A quero pesada do meu lado e não quero que ela mude.
E se você for mesmo embora como fez tantas outras vezes, deixa aqui esse pedacinho do que falta em você. Larga o pouquinho que sobrou do que partiu e deixa que eu aproveite cada segundinho desta saudade, viu?


"Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim."

(Drummond, mestre!)

Não consegui terminar o texto e não me senti incomodada pelo feito - deixa que a ausência fale o que deixou de ser falado.

3 comentários:

  1. "Me ensina outra vez pra qual time a gente tem que torcer e porque o gol foi impedido."
    Muiito bom esse texto! Muito bom o teu blog! Tô seguindo, pois adorei! o/ Parabéns!

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  2. A ausência de uma coisa é afirmação de outra, porque não é possível fazer um buraco sem elevar uma montanha; monte ou terra. E um esvaziar-se a si é preencher-se de vazio, que é profundo e reflexivo, que de tão branco e limpo torna-se com efeito um espelho da própria alma.

    E nesse momento o homem vê-se nu, em face de sua contingência e potência; surge aquela saudade de voltar ao Ser necessário, ao ideal. Então nasce o equilíbrio, de uma vida temporal e outra eterna; esta imbuida de saudade, emoção e ausência daquela. Basta apenas atravessar o espelho; objeto misterioso e ensejo de todo momento.

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