Palavras ocultas

Havia esperado por aquele momento. Não um dia, ou uma semana. Mas havia esperado por aquele momento a vida inteira, como as andorinhas esperam pelo verão. Havia passado e repassado o mesmo filme incontáveis vezes na mente, e já tinha certeza do que falaria. Certeza que, agora ela percebia, sumia como água que desce pelo ralo: rápida, sem fazer barulho ou deixar marcas.

Mas ela não se importava. Aliás, talvez esse defeito seja o motivo para ter demorado tanto para o filme se tornar realidade: ela não se importava com as coisas. Em seu âmago, ela de certo se importava. Sua alma chorava ao ver a alma de outros chorarem - especialmente a dele. Mas era difícil perceber tais fatos. A menina não deixava transparecer. Seus olhos... Talvez eles fossem rios sem água, esperando por uma gota de chuva no deserto do Saara.
Mas não naquele momento. Naquele momento, a menina já não era a mesma. Seria a chuva derretendo sua armadura de açúcar?
O cabelo e as roupas. Ambos completamente molhados. Estava frio e o vento soprava forte, mas ela não se importava - não com isso. Adorava tempestades. O perigo de verdade estava bem à sua frente. E a propósito, era lindo.
- Desculpa - ele disse -. Desculpa por ter demorado tanto tempo.
Passou a mão pelo rosto dela. Pele macia, morena. Era como ele a chamava: morena.
- Eu sei. - ela respondeu, tentando manter-se firme à sua fortaleza, seu castelo impenetrável.
- Eu sei que sabe - puxou-a para perto -. E é por isso que estou aqui, morena. Sei que passaram-se muitos dias e muitas horas, mas estou aqui. E sei que você se importa.
- Eu sei. - repetiu, já sem forças; sentia como se sua torre secreta estivesse em chamas. Mas não se importava, para falar a verdade. Não se importava com nada, só com ele. E ele sabia. E estava de volta.
- Eu te amo - ela disse.
Fechou os olhos e sentiu o mundo inteiro rodopiar. Arrependeu-se por ter dito. Havia jurado para si mesma que nunca diria tais palavras juntas, na mesma frase. Mas disse, e agora sentia medo. Um medo bom.
- Eu sei. - ele sorriu e a beijou.
Ela esperou que os créditos começassem a passar, como nos filmes que ela repetira em mente. Mas eles não passaram.
- Eu acho - ela suspirou - que você deveria ter tido "eu também".
- Eu sei - ele sorriu de novo - Mas eu não preciso. Porque eu sei que você sabe. E sei também que você sabe que eu sei. E mesmo que não soubesse, o vento de certo já teria se encarregado de contar-lhe.
E então ela sorriu.
E foi como se o Sol surgisse de dentro da tempestade.
E foi como se seu castelo, antes cercado pelos mais altos portões, não tivesse mais cadeado.


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2 comentários:

  1. Voce tem uma amabilidade e uma criatividade que surpreendem. Mas quando unidas se tornam uma essencia indecifravel. Adorei querida. Beijos!

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  2. Amr indiquei voce no meu blog para um desafio, passa la!

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