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Mostrando postagens com o rótulo Outra dose

Jefferson, o sôfrego escritor meia-boca de um conto só

     Fazia um inverno infernal neste inferno de cidade. Não sabia nem o que fazia ali, mas continuava ficando, e ia ficando e maldizendo e refletindo que o inferno não é quente, mas este frio fino, malcheiroso, apertado e encolerizante que fazia agora. Tinha também algumas outras certezas que não interessam a este texto. Este é um texto sobre outra coisa.      Pediram-no que escrevesse um romance, daqueles longos, complexos, comerciais-mas-nem-tanto. Não conseguia. Já tentara a máquina, o computador, o papel, meditação guiada e trocar as meias furadas e incensos e chás e tudo o mais. Nada aliviava o frio. Saiu para comprar cigarros, mas nem fumante era.     O vendedor era um cara miúdo, gorducho-mas-não-muito, mal encarado. Tinha o nariz torto para o lado esquerdo, sem nenhuma cicatriz, isso dava raiva. Nariz torto tinha que ter história. Nariz torto sem cicatriz era um cachorro que caiu da mudança, um erro, um desperdício de poeira espacial, um s...

Mais um dia seguinte

O textinho a seguir foi escrito em 2012, em conjunto com o  Daniel Bovolento, dono d o blog  Entre todas as coisas . Para acessar a postagem original no blog dele é só clicar  aqui . – Você deu três voltas no quarteirão e não bateu a porta. Você voltou de fininho e nem tirou a minha camisa amassada. Você deitou de novo e fingiu que nem tinha acordado… Por que você decidiu não ir embora? –  Fui comprar pão, hora nenhuma pensei em ir embora. E, a propósito, seu leite está vencido, já passou da data há um mês. Comprei mais. Se é que você se importa. Não gostei de ontem à noite. –  Não gostou de mim ou do jantar? Eu não compro leite com frequência. Tô há uns dias sem tempo pra fazer compras. Tá vendo os números pendurados na geladeira? São de delivery. Mas diz… De mim ou do jantar? – De tudo. Do lugar, da sua roupa, do seu cheiro. E sobre os números na geladeira, cansei deles também. Você anda muito distante. – Eu ando por aqui, ué… Tenho trabalhado muito, te mandei...

Um grito silencioso

Passam por mim e não veem. Me olham e não me enxergam. Não me ouvem. Não me conhecem. Não me sentem. Não se aproximam. Não sou o vento. Não sou Amor. Não sou partículas em suspensão. Não sou uma campanha publicitária na internet. Não tenho cor. Não tenho nome. Não sou cidadão. Não sou uma frequência de rádio. Não sou barulho. Não sou vida. Dia desses perguntaram quem eu era - curioso, não?! Sou o canto da sarjeta. Sou 16 milhões de brasileiros. Sou moeda quente. Sou um olhar pelo canto do olho. Sou 3,1% dos jovens deste país. Sou o esquecimento dos políticos. Sou a desigualdade social. A concentração de renda. Sou pão velho. Roupa furada. Uma ajuda, moça, um prato de comida, por favor? E lá se vai a moça fingindo que não é com ela. Que não ouviu direito. (Só mais um bêbado vagabundo!) Sou doente terminal há mais de 20 horas na sala de espera. Sou falta de saneamento básico. Sou sistema educacional precário. Sou um país inteiro. Sou filho de uma nação [fantástica?]. Sou carna...

Suicídio

Saiu como um trovão a última frase do livro. Pele pálida, suor descendo a linha do nariz, contornando a boca. Ah, a boca. Pinga no papel. "Mais um", foi o que pensou no momento. Na penumbra do quarto quente e vazio, a silhueta cravada de ossos. Magra como a noite escura, bordada de cicatrizes que o vento encarregou-se de trazer como se fossem estrelas. Mais uma gota de suor brota no topo da testa, ainda em meio aos fios ralos do cabelo, que insiste em cair. Acaricia a penugem da sobrancelha, irrita as pálpebras, pinga do olho, quase uma lágrima. Termina o caminho levemente como se não houvesse culpa nas entranhas do sal que carregava. Não há necessidade de limpar. "Mais um". Usava para escrever uma máquina como quem quer esconder a cena do crime. Recusava-se a encostar no papel - palavras cortam. Palavras sujas cortam. E cortavam-na por dentro e amarravam suas vísceras. Palavras são doenças incuráveis. A mão descascada tremia e fazia tilintar os ossos de vidro ...

Livro de cabeceira

Pro que ainda não chegou, espaço. Pro que já se foi, história. Costumo largar livros bons pela metade. Não por não gostar ou por ter preguiça, não mesmo. É pelo fim. Não compreendo porque certas coisas boas acabam com um virar de página e por isso vou atrasando a leitura ao máximo, vou fingindo que não vejo o que se passa na trama... Tento esquecer dos personagens e de tudo o mais. Vez ou outra alguma palavra se desprende do texto e vem me tirar o sono, me sacodir a rotina. Tento embolá-la numa frase ao vento e não olhar pro livro empoeirando na cabeceira. Abro outro, mais um, largo tudo pela metade e me recuso terminar a emoção de ler o novo pela primeira vez. Pro que deu certo, outra dose. Pro que não deu, mais três. Juro que se você me olhar de novo, caminho até aí. Bonita camisa. Fica melhor amarrotada. Atravesso o continente do bar inteiro e vou aí te ver, eu juro.  Pros abraços perdidos, mapa.  Pros olhares cruzados, bom dia. Pros apertos de mão amedrontados, perdão...

O adeus que eu nunca dei

Fechei a mala pela décima vez. Sou péssima em terminar as coisas, que fique claro de primeira. Não consigo terminar nenhum poema, tremo ao terminar relacionamentos e é por isso que terminar de arrumar a mala é sempre um serviço árduo. Talvez me seja complicado não só pelo trabalho em si: rolar um zíper pelo pano desbotado não exige tanta força. Acho que fechar malas é difícil por causa do que está por trás - a despedida. E, meu caro, se existe uma coisa impossível ao ser humano, devo apontar que despedidas são impossíveis a mim. Olhei no relógio. Os dias ficam mais corridos quando a mente não para no lugar. Acho que o grande problema da humanidade está dentro daquilo que não é dito.  Amaldiçoadas sejam as palavras que não saem. Arrependi-me de todas as frases que montei na mente e que não fui forte o suficiente para colocar pra fora. Arrependi-me mil vezes de ter ouvido a música e não ter cantado junto. Você ficou parado ao pé da escada enquanto eu rolava minha mala ...

Fumaça e cheiro de mato.

Abriu a boca por um instante e balbuciou alguma coisa. Nenhum som foi ouvido, entretanto. Só o ruído do vento dançando pelo ar e enchendo todos os espaços que se fizeram vazios por tanto tempo. Na mão esquerda, seringa e soro. Na direita, fotografias que a lembrança fizera questão de esconder. E tudo o que não ficou, e tudo o que não sobrou, voltava neste instante. Endurecera-se com o concreto, adoecera com as horas no relógio. Inclinou a cabeça e olhou para o céu. Engraçado como o passado é bonito e grita alto! Uivou furtivamente mais uma vez o vento frio. E então veio a neblina. Inclinou a cabeça e, em um sorriso, desapareceu. O que se fizera fosco, curioso, agora era brilho. Adormeceu. ("Eu não devia te dizer mas essa lua mas esse conhaque botam a gente comovido como o diabo", como já diria Drummond.)
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A última coisa que busco fazer nessa vida é sentido. . 

Alzira Silva

Levantou-se e manteve-se ereta e em posição estratégica enquanto olhava em volta. Como um soldado a analisar seu campo de batalha. (E que batalha!) Podia ver vestígios da luta da noite passada em todos os lugares. Aliás, que lugar era aquele? Diferente. Não era como o Motel 4Estações, onde na cama, os corpos, embalados pelo calor das noites daquele janeiro, cediam espaço aos ratos. Era bonito. Havia uma bandeja no criado-mudo esquerdo. O lado em que ela dormia. Isso quando dormia. Porque ficava acordada todas as noites esperando o Sol se levantar e dar-lhe um beijo. Na bandeja haviam duas maçãs, alguns biscoitos e um copo com suco de laranja. "Geladinho", pensou. Questionou a si mesma que lugar seria aquele. Pôde ver refletida no banheiro uma toalha com o emblema do que ela julgara ser o lugar onde estava. Hilton. Havia dado sorte, então. Pensou no quanto sua conta bancária aumentaria. Pensou em João Mário, que já estava reclamando do ensopado que era posto na mesa todos o...

Carolírico

Dia desses matei um cara. E ignorante que sou, liguei e denunciei anonimamente o meu eu-lírico. Minutos mais tarde estavam na porta daqui de casa. Você está presa em nome da lei. Estranho, não? Desde pequena havia acreditado que uma das vantagens de ser escritora (ou pelo menos aspirante a tal cargo), seria poder colocar a culpa no meu eu-lírico caso as coisas não saíssem como o planejado. O que de fato não seria tão incabível assim. Meu eu-lírico é permanentemente mutável: assume formas, cores, sabores, amores... Ele tem coragem de ser, estar e fazer tudo aquilo que o meu eu-eu não é capaz. Confuso, não? Pois é. O pessoal do júri também achou. Escrevo, logo existo. Foi esta a explicação que me deram e que agora reconheço ser suficiente. Talvez meu lirismo não esteja tão longe assim do que eu realmente sou. Aliás, hoje acredito que os dois são muito parecidos! Provavelmente são até a mesma coisa. O problema é que o crime fora cometido e o réu já está sendo julgado: transformei a...

Open Bar

Um blues baixo, saxofone acompanhando. Era a terceira vez que estava ali. Gostara do lugar: não tinha pagode, cerveja e desarrumação. Era fino: whisky , piano e mesas de mármore. Já havia muito tempo desde aquele dia em que insistia esquecer. Mas a melancolia por trás de seus olhos vermelhos e sua fala alterada não me enganava: sofria muito aquele senhor. Sim. Muito. Tivera muitas namoradas depois do que ocorrera. Loiras, morenas, ruivas, altas, baixas, gordinhas, magérrimas ... Todas elas tinham algo em comum: adoravam notas de cinquenta reais. De vez em quando pediam mais, mas acabavam recebendo isso mesmo. Desde todo aquele incidente, a madrugada se tornara sua melhor amiga. Botequins se tornaram seus aposentos e vinho, seu café da manhã. Mas eu o conhecia mais do que ninguém naquele bar. Sabia do que se passava em sua mente. A fumaça do charuto que acabara de começar a tragar embaçava a visão de todos, menos a minha: sofria muito aquele senhor. Sim. Muito. Era famoso...

Renascimento

Quando eu perder o movimento, não quero que chorem. Não quero que comecem a usar os verbos referentes a mim no pretérito. Não quero que toquem músicas tristes ou que usem preto. Quando eu partir, não quero que se lembrem de mim pelas minhas riquezas. Talvez seja até melhor não se lembrarem nem das minhas proezas! Quero que lembrem-se dos meus erros. Das minhas falhas. Quero que lembrem-se dos momentos em que eu achei que morreria. Porque foram estas ocasiões que me fizeram crescer. Não teria realizado meus acertos memoráveis sem meus desregramentos. Quando meu corpo se expirar e o sangue que pulsa em minhas veias se extinguir, não quero que se lamentem por terem me falado o que não deveriam. Não quero que se lastimem por não terem me apoiado o suficiente. Não quero que se magoem por causa das roupas e jóias que deixei. Que fique claro: não levarei tesouros e nem ressentimentos para o túmulo. Mas o meu maior desejo, o mais puro e firme de todos eles é este: não quero que me deixem...