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Mostrando postagens com o rótulo Desapego

Ode ao salto agulha

O problema não era a unha do dedão meio descascada no cantinho esquerdo. Talvez o problema fosse a ponta dupla do cabelo e a hidratação que ficou por fazer - mas acho que não. O erro não estava no pneuzinho da cintura. Academia semana que vem, prometo! Talvez fosse a TPM. E a conversa no ônibus daquelas duas moças de salto fininho. Você vai pedir pra voltar? Lógico que não, né, amiga? Onde já se viu? Mulher correr atrás de homem?! Ele que venha atrás... Isso aí, querida, porque você sabe; vai que ele se acomoda e aí já viu, né? Pois é, vou ficar igual a Marcela, que vai atrás do namorado em todos os cantos. Tem que se dar o valor! O problema devia ser o calor. O problema talvez fosse a porcaria do celular que não quer colocar aspas e o texto que sai meio pulando pra fora e as coisas na cabeça o trabalho da faculdade a falta de virgulas a falta de acentos a sobra de preguiça o almoço corrido o nao que ouviu semana passada a menstruaçao atrasada cade os acentos do meu celular? ...

O grande mito do "felizes para sempre"

"A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade." Amo Drummond e não é de graça - ele faz por merecer. Excessos literários e purpurinas à parte (coisa rara de se ver por aqui, confesso), venho apresentar minha opinião sobre o grande fantasma do felizes para sempre que a sociedade nos enfia pela garganta e a gente acaba se deixando engolir. Então se prepare, porque lá vem. Delete do pensamento a sensação de que amor só é de verdade quando se mistura com paixão e envolve duas pessoas.  Não é assim. Aliás, esse tal amor carnal é uma das variações do Amor Maior (sim, em letra maiúscula!) e não, ele não é o segredo da felicidade. Esqueça os filmes e os livros e a mídia e toda a ideia de que o futuro traz felicidade. Ele não traz.  O para sempre também não é o segredo da felicidade. E devo mencionar que...

O adeus que eu nunca dei

Fechei a mala pela décima vez. Sou péssima em terminar as coisas, que fique claro de primeira. Não consigo terminar nenhum poema, tremo ao terminar relacionamentos e é por isso que terminar de arrumar a mala é sempre um serviço árduo. Talvez me seja complicado não só pelo trabalho em si: rolar um zíper pelo pano desbotado não exige tanta força. Acho que fechar malas é difícil por causa do que está por trás - a despedida. E, meu caro, se existe uma coisa impossível ao ser humano, devo apontar que despedidas são impossíveis a mim. Olhei no relógio. Os dias ficam mais corridos quando a mente não para no lugar. Acho que o grande problema da humanidade está dentro daquilo que não é dito.  Amaldiçoadas sejam as palavras que não saem. Arrependi-me de todas as frases que montei na mente e que não fui forte o suficiente para colocar pra fora. Arrependi-me mil vezes de ter ouvido a música e não ter cantado junto. Você ficou parado ao pé da escada enquanto eu rolava minha mala ...

É chegada a vida nova.

Olhe-se no espelho. Vai. Anda. Para tudo e olha. Gostou do que viu? Lembre-se de tudo o que já passou. Vai logo! Pensa. Gostou do que lembrou? E quantas vezes você sorriu? Elas superam as vezes que chorou? E quantas vezes caiu? Levantou-se em seguida? Ainda está caído? Como vai a família? Tem ligado pra eles? E os amigos? Ainda estão lá? Você ainda está lá para eles? Ainda os empresta os ombros? Ainda tem ombros a quais recorrer quando a saudade aperta? E o cheiro do verão? Ainda se lembra dele? Vai, tira esse relógio do pulso. Esquece que dia é hoje. Números, apenas. Esquece seu cartão, tira da memória a placa do seu carro. E aí? Gostou? Está mais leve? Qual sua cor favorita? Qual é o sorvete que você mais gosta? Quando foi a última vez que abraçou alguém? Abre o armário. Mas abre rápido! Antes que seja tarde. Joga isso tudo no chão. Quem é você agora? Qual a última doação que fez? Ajuda que prestou. Quando foi? Você já ...

Infinito momentâneo

          Chegou em casa e se desfez de tudo que não lhe soava bem. Tudo o que era áspero e ácido. Atirou ao chão todas as pseudoafirmações que talvez em tempos longínquos houvessem sido suas mais concretas certezas.             Vestiu-se de estrelas e com elas brilhou a noite de lua cheia que outrora iluminara sua silhueta em meio a tantas promessas inúteis.           Pintou no dia que havia se deitado há muito a sabedoria que adquirira. E jogou-se em uma outra dimensão; o seu infinito. Mergulhou no mar que mais gostava (e que tantas vezes temia): sua alma.           Agora via-se completa. Continha em si o suficiente. A fórmula que necessitava.           Abriu um sorriso e se lembrou o quanto era bom dar risada.  . 

Bom dia, primavera!

"Ó última nuvem do temporal findo Navegas sozinha no céu todo lindo Tu jogas sozinha uma sombra sombria Sozinha entristeces o glorioso dia Há pouco encobrias todo o firmamento E raios lançavas do céu violento Fazias rugir misterioso trovão De chuva encharcavas o sequioso chão E basta! Já chega, passou a tua hora, Refrescou-se a terra, a borrasca foi embora, E a brisa suave já beija a folhagem E o vento te enxota - vai, segue viagem!" (A Última Nuvem - Liêrmontov) Teu amor foi como uma doce chuva de verão - só que no meio do inverno! Teu amor chegou, calminho, afofando a terra. Molhou as flores, alimentou as árvores, limpou minha alma. Teu amor ficou, inundou as ruas, afogou as pessoas, destruiu as plantas. Teu amor aumentou, expulsou de mim todas as minhas borboletas e passarinhos. Tirou de mim até mesmo o meu mais fiel escudeiro! Chegou sem avisar, me alegrou de montão. Mas se transformou numa enorme tempestade e engoliu tudo. Tudo? Casa, carro, esperança,...

E agora, José?

(Valeu, Drummond!) Neste momento, há 6.875.870.198 pessoas na Terra. Milhares delas estão felizes agora. Planejando o casamento, se arrumando para a formatura, no cinema com os amigos. Muitas estão dando gargalhadas neste exato segundo. Celebrando o aniversário, começando um namoro. Fazendo brigadeiro na casa da melhor amiga. Outras, estão acabando de acordar. Com aquela ressaca e muitas lembranças engraçadíssimas de ontem a noite. Dentre estas, algumas já estão até com o telefone no ouvido esperando o gatinho que elas conheceram atender. Boa parte deste número está trabalhando. Viajando. Contando as horas para chegar em casa e ver que o filho mais novo aprendeu a andar. Que aquela calça serviu na esposa. Mas devo lhes confessar uma coisa: a grande maioria chora. Lastima-se pela perda da avó, a nota baixa na prova de Geometria. A grande maioria está em prantos neste exato momento, com saudade do amigo que mudou de cidade, chateada com o ex-namorado chato que faz de tudo par...

Querido Romeu,

Desculpa. Esqueci de acrescentar um detalhe na última carta: lembra-se de quando eu lhe disse para cuidar bem do meu coração? Então. Agradeço por ter realizado esta tarefa tão bem durante muito tempo, mas se você não se importar, gostaria muito de pegá-lo de novo. Encontrei um outro alguém bem mais merecedor dele do que você. Obrigada. Julietta .

Querido Romeu,

Quanto tempo não lhe escrevo, não? Como vai a vida? Há muito não tenho notícias de você. Pelo visto você está aprendendo a controlar suas mudanças de humor, não? Fico feliz por isso. Eu vou bem. Não que você se importe, claro. Estava lendo a cópia das últimas cartas que lhe enviei (todas elas sem resposta). Algumas apaixonadas, outras enfurecidas. Não me arrependo ou me envergonho de ter escrito nenhuma delas, acredite. Porque mesmo sendo isso que você é, me orgulho de já ter estado ao seu lado. Você me ajudou e me ensinou muitas coisas. É. Mas sinto lhe informar que esta provavelmente será a última carta com meu nome que você receberá. Talvez não lhe façam falta as minhas notícias, se fizessem você teria de certo me respondido. Mas enfim. Estou te libertando. (E dessa vez é sério.) Cansei de te roubar para a minha vida e te prender aos meus problemas. E cansei de ocupar a minha mente com teu sorriso quando, na verdade, você não merece que eu o faça. Desculpa. Nunca coloqu...

Twilight

Um dia, daqui há algum tempo, eu vou achar um menino que me ligue ás 17h00 para dizer "o pôr-do-sol está lindo hoje, me lembrou você". Talvez, daqui há alguns anos, apareça para mim um homem que acredite em mim quando eu disser que vou tentar, que vou mudar. Um cara que vá ligar no aniversário da minha avó para desejar um bom dia a ela e que ele ainda possa repetir isso mais vezes. Um menino que compre sorvete e comece a fazer guerra de chocolate no meio da rua, só para me fazer sorrir, porque aquele não havia sido o meu melhor dia. Talvez, daqui há alguns meses, eu encontre um menino que diga que o meu cabelo fica lindo no sol, e na sombra, e fica lindo até quando está feio. Um cara que nunca concorde comigo quando eu disser que estou gorda, e que até me sugira sair da academia, porque se não vou acabar voando. Um homem que chegue na minha casa de surpresa, justo no dia em que eu estou de moletom devorando uma pizza assistindo à TV e diga: "vamos sair comigo? Trouxe...

Querido Romeu,

Aliás, nem tão querido assim. Mas enfim. Lhe escrevo porque hoje, pela primeira vez em muito tempo, eu estava feliz o suficiente para não ter criatividade de escrever histórias tristes. E devo minha felicidade à você, se quer saber. Porque hoje eu percebi que você mudou, mudou muito. E depois de todos esses longos dias melancólicos que se seguiram desde nossa separação, eu me sinto confortável com a distância entre nós dois. Me sinto confortável com o vazio. Me sinto bem andando na companhia de mim mesma e ninguém mais. Ainda te amo. Sim, te amo. Muito! Mas antes de amar a você, eu amo a mim. E procurar por você em meio desta estrada tortuosa e pedregosa que nós dois traçamos juntos, estava me machucando muito. Estava ferindo minha carne e minha alma. Eu estava quase virando uma masoquista, Romeu! E você viu isso acontecer. Viu acontecendo, ouviu as pessoas dizerem que estava acontecendo. E não fez nada, absolutamente nada para mudar essa realidade. Não acreditou em mim. Não me...

Para vovó Meiry

Não sei ao certo de onde vem os sentimentos. O lirismo prega que é do coração, mas a ciência diz que é do cérebro. De qualquer maneira, o meu depósito de feelings estava muito carregado. Cheio de amargura, tristeza, lembranças ruins. Mas aí me lembrei de uma moça - na verdade, uma senhora -, que acreditava que todos os problemas se resolviam com uma mistura mágica: água e detergente. Lembro-me de passar horas observando o quanto ela se divertia soprando bolinhas de sabão da varanda. Do quanto ela ria junto do papagaio e das samambaias , quando alguma bolinha sem querer voltava-se contra ela e se estourava na pontinha de seu nariz. Nunca entendia o motivo de tanta graça, de tanto riso. Não até agora. Porque hoje eu resolvi imitar. Mandei, com cada sopro, todas as minhas lembranças ruins, todos os meus motivos de choro, todos os meus medos, minhas agonias. Mandei para o infinito todo o meu passado ruim. Joguei para o céu todos os meus erros, todos os meus arrependimentos, todas ...

"Choro" - Primeira carta à R.

"R., Outra lágrima minha toca o chão. Já não escuto mais seu barulho sorrateiro, já não sinto seu calor descendo em meu rosto. Ela já não me preocupa mais, já faz parte da minha rotina. Não escondo, porém, que isso é triste. Porque é. E muito. Mas o que posso eu fazer se não me lamentar por não te ter mais ao lado meu? O que esperas que eu faça? Sorria e cante na chuva, mesmo sabendo que estou sozinha? Não, obrigada. Mas sabe por que lhe escrevo, meu amor? Logo hoje! Plena segunda. Sabe por que lhe escrevo? É que hoje faz um mês que você se foi, um mês que aqui estou sem respirar. 30 dias desde que você me puxou e eu senti teu calor, e eu te vi virando a esquina e levando consigo todo o resto de vida que ainda existia em meu olhar. A cada dia que passa, sinto como se nossa história se perdesse cada vez mais no vazio que se encontra a distância entre nós dois. A cada segundo, cada mínimo momento que seja, sinto que tua respiração fica ainda mais longe de mim. Já não ouço m...

Borbolanjo

Vai, borboleta! Voa! Vai viver no ar, vai colorir o céu, vai provar do perfume de outras flores. Eu deixo. Vai, borboleta! Voa! Vai dançar na imensidão azul, vai cantar junto da brisa, vai pular por aí. Eu te liberto, te libero. Mas me promete que volta? Me promete que não vai se esquecer? Promete que vai me ligar? Mandar cartão postal? Sinal de fumaça? Promete que vai sorrir ao lembrar de mim? Que vai ouvir nossa música e chorar baixinho? Que vai passar suas asas delicadas por todas as nossas memórias? Promete que não vai deixar o vento carregar todos os laços e todas as pontes que nós dois construímos com cuidado, todos os jardins que nós dois regamos com dedicação? Vai, borboleta! Comece a voar! Seja livre! Ponha-se já em harmonia com as vibrações positivas da natureza. Vai cativar girassois, tulipas, margaridas. Vai iluminar bosques, vai vigiar pomares! Ensinar às largatinhas como ser como você. Vai, borboleta, saia logo daqui! Sua vida é curta, dura só quinze dias, e v...