Suicídio

Saiu como um trovão a última frase do livro. Pele pálida, suor descendo a linha do nariz, contornando a boca. Ah, a boca. Pinga no papel.
"Mais um", foi o que pensou no momento.
Na penumbra do quarto quente e vazio, a silhueta cravada de ossos. Magra como a noite escura, bordada de cicatrizes que o vento encarregou-se de trazer como se fossem estrelas. Mais uma gota de suor brota no topo da testa, ainda em meio aos fios ralos do cabelo, que insiste em cair. Acaricia a penugem da sobrancelha, irrita as pálpebras, pinga do olho, quase uma lágrima. Termina o caminho levemente como se não houvesse culpa nas entranhas do sal que carregava. Não há necessidade de limpar.
"Mais um".
Usava para escrever uma máquina como quem quer esconder a cena do crime. Recusava-se a encostar no papel - palavras cortam. Palavras sujas cortam. E cortavam-na por dentro e amarravam suas vísceras. Palavras são doenças incuráveis.
A mão descascada tremia e fazia tilintar os ossos de vidro por dentro. Outro suicídio - o terceiro da semana. Era paga para se matar. Uns chamavam de assassinato, que não era ela a quem machucava - mas, caro leitor, você e eu sabemos bem que era sim. Era ela. Morria em meio ao silêncio barulhento dos carros no asfalto atrapalhando o tráfego e a si mesma (como se fosse sábado). Morria em histórias que não vivera - mas gostaria - e se destruía nas que era personagem principal.
"Mais um".
Poetisa incompreendida.
Investigadora dos próprios crimes que cometera - e ainda faria o dobro.
Ligou o ventilador.
Saiu como um trovão a última frase do texto.



A inspiração veio do meu amado Luís Fernando Veríssimo e de um livro dele que estou lendo no exato momento.
"A pena é o pai e o arado e o papel é a mãe e a terra neste velho ritual de profanação e semeadura, mas que possível significado podem ter os tipos metálicos de uma máquina golpeando um pobre papel? De certa maneira, escrever à máquina corresponde a mandar capangas fazer o nosso serviço sujo. Mantemos as mãos limpas. Os que cavavam as letras primitivas com cunhas em tabletes de barro, estes sabiam que crime estavam cometendo. Foram os primeiros. Sempre que preciso trocar a fita da máquina, vou correndo depois lavar as mãos como se elas estivessem sujas de sangue. Os que escrevem com pena assumem os seus livros e sus dedos sujos. Nós temos um álibi. Somos apenas os autores intelectuais das nossas tramas."

O livro se chama O jardim do diabo e mistura tudo o que vocês imaginarem. Fica aí a dica de leitura.

3 comentários:

  1. Adorei a dica, adorei o texto...... esperemos mais.... muito mais.... mesmo que atrapalhe o trafego!!!!! Beijo

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  2. Obrigada. Devo conferir, até mais. Venha me visitar.. .

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  3. Eu já li esse livro e é maravilhoso! E o texto tá lindo Carol, como sempre *-*

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