O adeus que eu nunca dei



Fechei a mala pela décima vez. Sou péssima em terminar as coisas, que fique claro de primeira. Não consigo terminar nenhum poema, tremo ao terminar relacionamentos e é por isso que terminar de arrumar a mala é sempre um serviço árduo. Talvez me seja complicado não só pelo trabalho em si: rolar um zíper pelo pano desbotado não exige tanta força. Acho que fechar malas é difícil por causa do que está por trás - a despedida.
E, meu caro, se existe uma coisa impossível ao ser humano, devo apontar que despedidas são impossíveis a mim.
Olhei no relógio. Os dias ficam mais corridos quando a mente não para no lugar.

Acho que o grande problema da humanidade está dentro daquilo que não é dito. Amaldiçoadas sejam as palavras que não saem.
Arrependi-me de todas as frases que montei na mente e que não fui forte o suficiente para colocar pra fora. Arrependi-me mil vezes de ter ouvido a música e não ter cantado junto.
Você ficou parado ao pé da escada enquanto eu rolava minha mala pelo chão. Já te disse o quanto seu silêncio me perturba? Me arrependi ali, também. De não ter gritado pedindo para que você abrisse a boca.

Malditos são os abraços não entregues, as cartas que não são escritas.
Subi no avião procurando motivos para descer dele. Não encontrei nenhum - você não havia pedido para ficar, o café estava frio e era hora de ir embora. Fiz o que venho fazendo desde meu primeiro piscar de olhos: fui embora. Fui embora com o aperto das despedidas que me doem e com a agonia do que deveria ter sido dito e não foi. Fui embora com o peso da mala difícil de fechar e com sua imagem, serene, como sempre fora.

Cheguei em casa. Acho que, afinal, o problema das despedidas seja o pedaço que a gente deixa perdido por aí sempre que dá adeus.
Agradeci. Que bom que abrir malas é muito mais fácil que fechá-las.


"Falar é completamente fácil, 
quando se têm palavras em mente 
que expressem sua opinião.

Difícil é expressar por gestos e atitudes 
o que realmente queremos dizer, 
o quanto queremos dizer, 
antes que a pessoa se vá."

Como já diria Drummond.

3 comentários:

  1. Malas..... Sempre as carregamos. E as que deixamos para trás também sáo difíceis de serem fechadas.... Beijo

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  2. Amaldiçoada é a vida não vivida; as loucuras não feitas e os momentos perdidos. E quanto tempo demoramos para percebermos que não há tempo para perder? Deveras, muito tempo.

    E o que é maior tristeza se não a falta de ousadia? De tentar o novo, de experimentar e fazer ciência; da causa-consequência. O medo do novo nada mais é que atitude sofismática, retração, vergonha e fuga dialética; fuga racional. Tocata e fuga. É uma repetição e desventura.

    Escreva com maior frequência, moça, seus escritos são adoráveis. Lembre-se de suas inspirações. Nietzsche já dizia que "é necessário um caos dentro de si para gerar-se uma estrela". Então deixe essa microfísica agir; porque um mundo sem poesia - sem arte -, é terrível demais!

    "Laissez faire"; deixai fazer.

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  3. Carol, espero poder te chamar assim, seus textos sao incriveis! Se voce aceitar um conselho, te dou esse: escreva mais, pois quando os leitores gostam de um blog passam a visita-lo com frequencia, e a partir do momento que percebem que nao ha textos novos faz um bom tempo, desistem.
    Mais uma vez: parabéns pela escrita.
    E espero poder te ler mais vezes.

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