Óculos velho

Há um tempo atrás, durante meu trajeto para a escola, enquanto passava pela Avenida Europa, um moço trajando um terno azul-marinho velho e surrado, barba já grisalha e por fazer se aproximou de mim com um sorriso meio amarelado e disse: Não está na hora de trocar seus óculos?

Julgando ser algum maluco ou pedófilo (maldita mente humana preconceituosa!), saí de perto dele o mais rápido que pude e continuei minha caminhada apressada.
Entretanto, o velho velho problemático continuou me fazendo aquela mesma pergunta naquele mesmo lugar todos os dias. E todas as vezes eu agia da mesma maneira: saída de perto, desviava, dava um pequeno empurrãozinho nele e continuava andando.
Não está na hora de trocar seus óculos?
Sempre fui muito curiosa, e quanto mais ele me questionava, mais me perguntava o porquê daquilo. Eu nunca havia usado nenhum tipo de óculos: não tinha problemas de vista e odiava andar com óculos de sol na rua. Nessas últimas semanas, fui tomando coragem pouco a pouco até que finalmente consegui me aproximar dele e responder: Não. Não preciso de óculos, obrigada.
Ele parou de andar, fez uma cara pensativa, me olhou dos pés à cabeça (o que me deixou um pouco constrangida, para dizer a verdade) e respondeu com muita calma e em tom de desafio: Precisa sim.
Não. Não preciso não.
Precisa sim. Ele repetiu. Seus óculos já estão quebrados, você precisa trocá-los imediatamente, se não acabará com um problema de vista seríssimo.
Olhei para os lados e confesso que cheguei a tocar meus olhos para me certificar se realmente não estava usando óculos. E não, não estava. Ficar ali parada conversando com aquele velho maluco me deixava cada vez mais curiosa e mais apavorada. Começava a me arrepender de tê-lo respondido.
Para o meu espanto, o velho levou a mão ao meu rosto, da mesma forma com que eu havia feito anteriormente, mas ao contrário de mim, ele conseguiu achar o óculos. Eram velhos, meio tortos, com fita adesiva remendando. Viu? disse. Você precisa trocar de óculos!
Dei um salto de medo. Comecei a tremer e a imaginar que tipo de mágico ou macumbeiro seria aquele homem, pois segundos antes eu estava com plena certeza de que não estava usando óculos nem nada do tipo. Ele percebeu o meu susto.
Deixe estes óculos enferrujados comigo. Vá à escola sem eles. Amanhã, neste mesmo horário, eu estarei aqui com seus óculos novos. E saiu.
Eu estava tão apavorada, que havia jurado para mim mesma de que não voltaria àquela avenida nunca mais, iria aprender outro trajeto para chegar até a escola.
Mas mudei de ideia no momento seguinte. Assim que o velho doido se distanciou, comecei a caminhar novamente e fui reparando milhares de coisas que nunca reparara: todas as pessoas daquela avenida estavam usando óculos! Uns bonitos, outros normais, outros iguaizinhos aos meus. Aliás, todas as pessoas que vi, até meus amigos da escola, também usavam! Comecei a ficar mais curiosa do que estava no início. Além disso, percebi coisas muito diferentes: meu namorado era um idiota, cheguei a esta conclusão. Vivia olhando para outras garotas, não sei como não consegui reparar isto! Minhas amigas estavam sendo muito falsas: falavam mal de mim e achavam que eu não podia ouvir, mas eu consegui escutar tudo perfeitamente! Fiquei com muita, muita raiva de todos. E no outro dia, a primeira coisa que fiz foi ir procurar o velho na Avenida Europa.
Não tardou muito e ele apareceu, como o mesmo terno e barba amanhecida. Gostou? Disse ele com o sorriso mais amarelo do que nunca, e me perguntei quanto tempo fazia que ele não escovava os dentes.
Não, não gostei. Minha vida estava linda, cheia de coisas bonitas. Eu via arco-íris em todos os cantos, e agora só vejo falsidade, ódio, rancor.
Ele continuou sorrindo, como se esperasse exatamente a resposta que eu dei. Mas isto é bom! Aqueles óculos estavam lhe fazendo mal, e como! Estavam distorcendo a realidade, deixando tudo parecendo maravilhoso quando na verdade, muitos perigos corriam do seu lado! O que eu fiz foi te ajudar.
Não me ajudou! Meu namorado é um galinha e minhas amigas são falsas. E agora eu converso com velhos doidos na rua.
Ele começou a dar gargalhadas. Bobinha! O mundo não é tão ruim assim. Olhou para mim com um olhar sincero. Seu namorado não é um galinha e nem todas as suas amigas são falsas, ele disse. É que ficar sem óculos também é muito perigoso: você acaba enxergando apenas coisas ruins, isso não é bom! Toma: aqui está seu presente.
Nessa hora, ele colocou um par de óculos normais em minha mão e continuou dizendo: Muitas vezes nós distorcemos a realidade para ver apenas as coisas que nos convém. Ouvimos coisas que não foram ditas e vemos coisas que não foram feitas. Mas estes óculos aí a ajudarão a ver somente a verdade, e espero que você faça bom proveito deles. Nem tudo é o que parece ser, disso eu lhe dou certeza, mas tem muita coisa que nós, meros mortais, acabamos alterando para que a vida fique mais fácil. Nosso cérebro é um labirinto!
E saiu.
Não pude fazer outra coisa a não ser colocar no rosto aquele par de óculos: e me fez tão bem! Olhei para o céu: estava um dia ensolarado e maravilhoso! O velho biruta nunca mais me apareceu novamente, mas me lembro dele todo santo dia. Agora enxergo as coisas da maneira que elas realmente são.
Muitas vezes me decepciono feio, sim, mas eu tenho uma força maior do meu lado: a verdade!
E você, será que não está precisando trocar seus óculos também? :)

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1 comentários:

  1. Oi, pois é.... precisamos trocar o oculos de vez em quando. VER é muito dificil! Ver e entender é muito mais dificil.... mas é a pura verdade. Beijo, Annelise

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