O retorno da estrelinha.

"Kaikala me magoara, sem dúvida.

Tinha me traído, embora não visse aquilo como traição.
E, no fim, comportou-se de tal modo que achei bom abandoná-la.
Apesar de tudo, eu a amei durante algum tempo. O meu primeiro amor. E ela me ensinou muita coisa a respeito de mim. Doeu-me vê-la partir. Pronto, eis a verdade. E se isso me faz parecer otário, paciência."
(O Garoto no Convés - John Boyne)

Sinto como se não tivesse sido completamente franca com vocês esses dias. Então eis a verdade: encontrei minha estrelinha. Sim! Encontrei-a no mesmo céu, no mesmo lugar, brilhando por sobre o mundo e me olhando da janela. Mas estava mais fraquinha. Bem mais fraquinha, praticamente apagada. Perguntei então por onde ela andara, por quais constelações havia viajado e qual seria o motivo para ter demorado essa eternidade para regressar. Ao que ela respondeu, sem pensar muito e de uma forma ríspida: Achei outra janela. Exatamente. Outra janela, de uma casa mais bonita, com uma menina mais bonita dentro do quarto.
E depois ficou me olhando como se minha cara de estupefação não fosse necessária. Então a indaguei, quis saber onde era aquela casa, quem seria a vaca que roubara minha estrelinha. Você não conhece, desculpa. E não irei te contar. Não quero que você venha comigo. Te quero aí. No seu quarto, sob o seu cobertor, com o teu livro.
Se é que existe uma palavra para definir o que eu senti naquela hora, ela é clara e simples: ciúme. Muito! Barris e barris de ciúme, talvez até um oceano. Onde já se viu? Roubar a estrelinha de alguém? Que tipo de pessoa faria isso? Estrelinhas são astros tão puros, tão... Únicos. Não se rouba uma estrelinha. Se tiver que ser tua, ela será. Mas roubar uma estrelinha? Não acreditei! E ela teve de repetir a história mais uma vez para que eu pudesse perceber que se tratava realmente da verdade.
E a segunda vez em que ouvi que não teria mais minha estrelinha para cuidar de mim quando o frio fosse mais forte que meu cobertor, reagi de maneira ainda pior. Tal era minha aflição, que me sentei e chorei como um bebê com medo. Medo de não ter mais por onde me guiar.
Assustada, ao me ver em prantos, a estrelinha fez com que havia se lembrado de quem eu era. E, tentando me ajudar, acredito, disse: Mas não chores... Não quero a tua dor. Não mesmo! Não quero o teu rancor, não quero a tua doença. Quero a tua felicidade e que teus sonhos sejam os melhores. De primeira vez não entendi. Como poderia ela desejar o meu bem se estava naquele exato momento se despedindo, me dizendo para não procurar e nunca mais repetir seu nome em voz alta? Eu mando a lua, prometeu. Mando a Lua e trinta mil estrelas cadentes, para realizarem todos os seus pedidos. Mando os astros mais bonitos te iluminarem durante a noite e mando o Todo-Poderoso Sol te aquecer durante o dia.
"Complicado". A única palavra que percorria minha mente. Já estava tarde, reconheço. E eu já deveria ter me deitado há muito tempo. Mas preferia ficar da janela me deliciando com a graciosidade da minha estrelinha. E era triste, sim (e muito), a tua despedida. Mas aquela foi a primeira de muitas noites em que eu não havia chorado. E não pretendia chorar.
Escute, pois o que eu digo é verdade: vou lutar com todo o Universo se preciso para zelar pelo seu bem, meu bem. É isso que eu farei, e se for necessário, sou capaz de me jogar contra a Terra só para ter a certeza de que seu coração está bem. Pude ver uma pequena lágrima brilhante, com todas as cores do arco-íris, digna de uma estrelinha como aquela, rolar por sobre seus cinco braços. Desculpe, mas meu trabalho por aqui terminou. E não dificulte as coisas, por favor, nunca mais ouse me procurar! Há uma outra menina precisando de alguém para mandá-la dormir quando ela perder as horas lendo e para cobri-la quando ela perder a coberta. Não repita meu nome mais. Por favor. Porque se você repeti-lo, eu de certo escutarei, e irei querer voltar. Mas não conseguirei.
Então ela se aproximou, chegou bem pertinho da minha janela e me deu um beijo na testa. Cujo eu me lembro perfeitamente. Depois se virou, piscou três vezes (a última mais demorada do que as anteriores, como se ainda não tivesse certeza a respeito de sua decisão). Se cuida, pude ouvi-la dizer baixinho. E aí sumiu.
"Mando a Lua e trinta mil estrelas cadentes". Suas palavras ecoaram por minha cabeça até chegar o sono e tomar conta de meus pensamentos.


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3 comentários:

  1. Que lindo querida. Mesmo que se despedindo ela se importou, quis ficar - mas nao pode. Mas é exatamente assim na vida não é mesmo? As vezes acontecem coisas que nao queremos. Mas elas acontecem. (:

    Ah, eu comentei na tua postagem anterior. A carta. Um pouco atrasada, mas cheguei a tempo de lê-la. Veja la. (:

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  2. Siiiim! Lys, você não sabe o quanto teus elogios são valiosos para mim, flor! Muito obrigada. :)

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  3. Não só a estrela te ilumina e te guia como todos os astros. Às vezes é bom uma ou outra estrelinha se distanciar para que possamos observar o brilho de outras.

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